Sloth World em Orlando: Escândalo e Fechamento

Sloth World em Orlando: A Promessa, o Escândalo e o Fechamento
Em dezembro de 2025, Orlando anunciou uma novidade que gerou enorme expectativa entre os amantes de animais: o Sloth World, apresentado como o primeiro e único "Slotharium" do mundo, abriria suas portas na International Drive em fevereiro de 2026. A proposta era sedutora — um habitat de 700 m² no estilo floresta tropical, sem grades nem barreiras de vidro, onde mais de 40 preguiças de diferentes espécies viveriam livremente enquanto visitantes as observavam em pequenos grupos guiados. Os ingressos custavam US$ 49 por pessoa, com tours diários das 9h às 21h, no endereço 6582 International Drive.
A atração prometia aliar entretenimento à conservação. Segundo Pete Bandre, vice-presidente do Sloth World, "queremos que os visitantes sintam que entraram no mundo das preguiças — não o contrário". Uma parte dos ingressos seria destinada à proteção de habitats na Guiana, Costa Rica e Peru. O projeto foi amplamente divulgado pela mídia especializada em turismo e chegou a ser listado entre as 26 novidades de Orlando para 2026 pela Visit Orlando.
A Realidade por Trás da Vitrine
Enquanto o marketing prometia um paraíso para as preguiças, uma realidade muito diferente se desenrolava nos bastidores. Segundo um relatório da Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC), obtido pelo portal Inside Climate News, pelo menos 31 preguiças morreram entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 — antes mesmo da abertura ao público — em um armazém na International Drive onde os animais eram mantidos após serem importados da Guiana e do Peru.
O relatório descreveu condições precárias: o armazém não estava preparado para receber os animais, houve uma falha no sistema de aquecimento durante uma noite fria, e alguns animais chegaram já debilitados. Inspetores também documentaram que parte das preguiças estava alojada em gaiolas que não atendiam aos requisitos legais. A FWC emitiu apenas uma advertência verbal pelas condições inadequadas — o que evidenciou uma lacuna regulatória grave, já que as regras vigentes não exigiam que as instalações notificassem as autoridades sobre mortes de animais.
A deputada estadual Anna V. Eskamani foi uma das primeiras a alertar publicamente sobre o caso, informando que o alvará da empresa estava vencido e que os animais permaneciam sob posse dos operadores. Ao longo dos meses seguintes, novas investigações revelaram que o número total de mortes havia ultrapassado 50 preguiças. Em 1º de maio de 2026, o Procurador-Geral da Flórida anunciou a abertura de uma investigação criminal.
De Onde Vieram as Preguiças?
A Sloth Conservation Foundation (SloCo) e o Sloth Institute foram os primeiros a levantar a questão central que o marketing da atração nunca respondeu satisfatoriamente: de onde vieram mais de 40 preguiças para um empreendimento comercial? A resposta, confirmada pelas investigações, foi que os animais eram capturados na natureza — retirados de suas florestas nativas na América do Sul para servir de atração turística.
A empresa responsável, Incredible Pets Inc., importou 80 preguiças para os Estados Unidos. As preguiças de três dedos, que compõem parte do plantel, são especialmente vulneráveis ao estresse do cativeiro — especialistas em biologia da espécie afirmam que esses animais raramente sobrevivem fora de seu habitat natural. A ironia, como apontou Sam Trull, do Sloth Institute, é devastadora: "A ironia de extrair preguiças da natureza para financiar a conservação de preguiças na natureza é impressionante."
O Fechamento Definitivo
Diante da pressão pública, das investigações governamentais e da mobilização de organizações de conservação ao redor do mundo, o Sloth World Orlando encerrou suas atividades definitivamente em abril de 2026, sem nunca ter aberto ao público de forma regular. A empresa declarou falência e os proprietários afirmaram que a atração "jamais mostraria algo aos clientes porque jamais abriria". As preguiças sobreviventes foram entregues a instituições credenciadas para reabilitação.
Em paralelo, a Flórida tomou uma medida histórica: o estado proibiu a importação de preguiças para fins de exibição comercial, em resposta direta ao caso. A decisão foi amplamente celebrada por conservacionistas como um passo importante para fechar a lacuna regulatória que permitiu que o escândalo ocorresse.
O Que os Turistas Brasileiros Precisam Saber
O caso do Sloth World é um alerta importante para turistas que planejam visitar Orlando. A cidade recebe dezenas de milhões de visitantes por ano e, naturalmente, atrai empreendedores que tentam capitalizar sobre a demanda por experiências únicas com animais. Nem toda atração que promete "contato com a natureza" é eticamente responsável.
Antes de comprar ingressos para qualquer atração que envolva animais silvestres, vale verificar: se a instituição é credenciada pela Association of Zoos and Aquariums (AZA) ou pelo Global Federation of Animal Sanctuaries (GFAS); a origem dos animais — santuários legítimos trabalham com animais resgatados, não capturados na natureza; se há contato físico com os animais — segurar, abraçar ou tirar selfie com animais silvestres é quase sempre prejudicial para eles; e avaliações recentes em fontes independentes como TripAdvisor, Reddit e grupos de viajantes.
Alternativas Responsáveis para Ver Preguiças
Para quem ainda deseja ter uma experiência com preguiças durante a viagem à Flórida, existem alternativas credenciadas e eticamente responsáveis. O Florida Aquarium, em Tampa (a cerca de 1h30 de Orlando), oferece um encontro supervisionado com uma preguiça de dois dedos resgatada, em um programa que segue rigorosos padrões de bem-estar animal. Outra opção é visitar o ZooTampa at Lowry Park, também credenciado pela AZA.
Para quem quer ir mais fundo, a Costa Rica é o destino ideal: o país abriga o Sloth Sanctuary e o Toucan Rescue Ranch, onde preguiças resgatadas são reabilitadas com o objetivo de serem devolvidas à natureza — e onde os visitantes podem aprender sobre a espécie de forma verdadeiramente educativa.
Uma Lição para o Turismo Responsável
O caso do Sloth World não é um episódio isolado. É o reflexo de um modelo de turismo que coloca o entretenimento acima do bem-estar animal e que prospera enquanto os consumidores não fazem as perguntas certas. A boa notícia é que a pressão pública funcionou: a mobilização de jornalistas, legisladores, organizações de conservação e cidadãos comuns foi determinante para o fechamento da atração e para a mudança na legislação estadual.
Como turistas, temos mais poder do que imaginamos. Cada ingresso que compramos é um voto sobre o tipo de turismo que queremos apoiar. No caso das preguiças de Orlando, o voto coletivo foi claro — e fez diferença.
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